A Atividade Física é uma grande aliada no tratamento e na prevenção do câncer de mama, sendo considerada essencial para o controle da doença e para a manutenção da qualidade de vida das pacientes. Porém, é comum o aumento do sedentarismo nessa população, mesmo depois de anos do fim do tratamento. Isso porque a adoção de uma vida ativa envolve muitos fatores, englobando aspectos sociais, afetivos, econômicos e motivacionais.
Remama foi criado para estimular atividade física em pessoas sobreviventes do câncer de mama
Frente a esse contexto, o Projeto Remama foi criado em 2013 para atender pacientes do Instituto de Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) durante a fase de remissão da doença, na etapa de reabilitação, após tratamentos como quimioterapia e cirurgia. Atualmente, o projeto promove treinamento em canoagem a 42 pessoas, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida e a auto-estima das participantes. O Remama é realizado por meio de parceria entre ICESP, CEPEUSP e EEFEUSP, que atua por intermédio do Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Exercício, coordenado pela docente Patrícia Chakur Brum.
Ciência aliada à prática
Para além dos benefícios às participantes, o Remama também auxilia na produção de conhecimento científico ao fornecer informações para estudos que exploram diferentes aspectos relacionados ao câncer de mama e sua interface com o exercício físico. O mestrando Raphael Ferreira de Paiva Barreto explica que o tratamento médico, especialmente a quimioterapia, pode deixar sequelas devido a sua cardiotoxidade e neurotoxicidade, inclusive na saúde mental das pacientes. O exercício físico pode ser uma importante ferramenta para auxiliar no processo de reabilitação. [
Exercício físico ajuda na saúde física e mental das participantes
Atualmente, na saúde pública, a orientação de atividade física a pessoas em reabilitação do câncer de mama é realizada por meio de cartilhas informativas. Em seu trabalho de mestrado, Raphael compara dois grupos de sobreviventes à doença. Enquanto o primeiro grupo, de 17 mulheres, apenas recebe a cartilha, conforme é usual, o segundo grupo, de 18 voluntárias, recebe a cartilha e participa do programa de treinamento supervisionado do Remama duas vezes por semana. Embora os resultados sejam ainda preliminares, o pesquisador relata que já é possível observar no segundo grupo uma melhora nos aspectos funcionais, na percepção das remadoras em relação à própria capacidade física e à qualidade de vida de maneira geral.
Saúde de corpo e mente
Mas não é apenas no aspecto físico que os exercícios podem auxiliar. Um dos efeitos da quimioterapia é o Chemo Brain, ou “nevoeiro encefálico quimioterápico”, que afeta memória, atenção, função executiva e velocidade de processamento. Os efeitos dessa disfunção podem persistir por muito tempo e levar à instabilidade emocional e à depressão. Por outro lado, estudos demonstram que exercícios físicos são eficazes para o controle e preservação das habilidades cognitivas e autonômicas. No projeto de mestrado de Jule Pires Amaral, busca-se investigar se a rotina de treinos do Remama é capaz de atenuar ou até prevenir esses efeitos do tratamento.
Ainda em termos de saúde mental, a motivação é considerada peça chave para a manutenção da rotina de treinamentos. Diversos fatores podem interferir na prática de atividade física, como senso de pertencimento ao grupo, existência de laços afetivos, necessidade de tempo e espaço para a prática, e, ainda, aspectos financeiro e motivacional. No Trabalho de Conclusão de Curso defendido por Guilherme de Medeiros Souza, sob orientação da pós-doutoranda Aline Gurgel, foram aplicados questionários às participantes para identificar seu perfil de motivação.
Senso de pertencimento a um grupo é um dos fatores de motivação para a prática de atividade física
Os resultados indicaram que as mulheres mais motivadas eram as que se identificavam de maneira espontânea e autônoma com as atividades e treinos. Além de serem mais participativas, eram também as que mais se movimentavam em atividades rotineiras como caminhar até o supermercado, subir escadas, fazer jardinagem, entre outras. Identificar o perfil de motivação para atividade física em sobreviventes de câncer de mama pode ser estratégico para planejar ações de forma a potencializar um estilo de vida mais ativo.
Dessa forma, podem ser propostas intervenções para motivar as participantes menos ativas, por exemplo, propondo metas semanais ou desafios, como usar uma escada, caminhar no quarteirão ou compartilhar uma foto se exercitando. A ideia é estimular o grupo com menor índice de motivação a internalizar a importância da atividade física e a desenvolver autonomia para se movimentar, dentro e fora do programa.
Vida ativa no durante a pandemia
Independentemente do perfil de motivação, em 2020, devido à pandemia, as participantes enfrentaram o grande desafio de se manterem ativas durante o isolamento social. Em setembro de 2020, foi realizada uma pesquisa para averiguar a situação das remadoras. Por meio da aplicação de questionários online, o estudo revelou que, neste período, elas aumentaram sua massa corporal e 90% relataram níveis decrescentes de atividade física associados ao aumento do tempo de comportamento sedentário.
Atividade do RemamaOn, programa de treinos a distância para as participantes do Remama
Frente a essa situação, o grupo estruturou um projeto de atividade física orientada a distância voltado a essas mulheres, o RemamaOn. As participantes treinavam duas vezes por semana e recebiam orientação individualizada em sessões de uma hora. A iniciativa contribuiu para que as remadoras mantivessem seus níveis de força e flexibilidade, sendo os dados analisados por meio de estudo de Jean Augusto Coelho Guimarães, membro do grupo de pesquisa em Fisiologia Celular e Molecular do Exercício. As sessões online obtiveram tantos resultados positivos que o treinamento remoto se mantém até hoje, mesclado aos treinamentos na Raia da USP.
Celebrando o Outubro Rosa
Prestes a comemorar 10 anos de existência em 2023, o Remama não poderia deixar de destacar o Outubro Rosa, mês da conscientização sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. No dia 20/10, parte dos pesquisadores e o instrutor de remo José Carlos Simon Farah Prof. Farah foram chamados para uma roda de conversa no Instituto Butantã a respeito do projeto.
Além disso, as remadoras também participaram do Festival Kaora de Canoagem, em Santos, e planejam uma remada comemorativa para encerrar o mês. Sob a perspectiva científica, vislumbra-se a ampliação dos estudos relacionados ao projeto, com a conclusão dos projetos em andamento e parcerias com outras universidades.
Os trabalhos do Remama podem ser acompanhados na rede social do projeto: https://www.instagram.com/remamadragaorosa/