Na saúde pública, as Práticas Integrativas e Complementares (PICS) desempenham um papel importante no tratamento integrado com a medicina convencional. Essas práticas complementam o cuidado biomédico, auxiliando na recuperação e promoção da saúde dos pacientes. São recursos terapêuticos baseados em conhecimentos tradicionais e, atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece à população 29 modalidades de PICS. Dentre essas, as mais ofertadas são as práticas corporais, como a biodança, dança circular e yoga. Nesse sentido, há uma oportunidade de aproximação dessas práticas corporais ao currículo de formação superior em Educação Física.
Porém, ao analisar as matrizes curriculares de cursos universitários na área, um trabalho de mestrado defendido na EEFE-USP identificou que existem lacunas a serem preenchidas na maneira como as PICS são abordadas. Conduzido por Viviana Graziela de Almeida Vasconcelos Barboni, sob orientação da Profa. Dra. Yara Maria de Carvalho, a pesquisa foi constituída por um estudo qualitativo. O objetivo foi entender como se dá a formação nessas práticas na graduação em Educação Física.
Yoga é uma das práticas corporais incluídas nas PICS atendidas pelo SUS. Foto: Aula de Yoga no Cepeusp.
Assim, 172 cursos de universidades públicas brasileiras foram analisados, e, pela avaliação de sua estrutura curricular, foram confirmados os resultados de estudos anteriores que já previam defasagens nos conteúdos. Além disso, também foram identificadas implicações desses achados para a formação em PICS. De acordo com Viviana, as disciplinas da área de saúde, nos cursos de Educação Física, “costumam ser apresentadas como componentes isolados, desarticulados de outras disciplinas e subáreas”. Além disso, não se estabelece uma relação com a Saúde Coletiva enquanto área agregadora e tampouco se explora um diálogo com o SUS.
Com relação especificamente às PICS, elas estão presentes em apenas 19,7% dos currículos avaliados. De acordo com a pesquisa, as práticas são abordadas sem interface com outras profissões da saúde, e sem o debate que ancora e justifica a presença dessas disciplinas nos currículos. De acordo com a pesquisadora, o cenário colabora para uma formação fragmentada e um entendimento raso sobre as PICS. Ainda, a ausência de diálogo com o SUS cria um distanciamento dos alunos diante das ofertas de atuação profissional na área da Saúde Coletiva e das próprias necessidades da população.
Biodança também é incluída entre as PICS. Crédito para a foto, clique aqui.
Para mudanças futuras na maneira como a área da saúde é abordada nos cursos de ensino superior em educação física, Viviana comenta que os próximos anos serão propícios para reformulações curriculares. “A abertura de um espaço para construir diálogo e problematização entre diferentes sujeitos se torna profícua para a elaboração dessa temática, no sentido de inspirar discussões sobre as formações e os currículos com menos limites e fronteiras e mais permeáveis e inteligentes, mais condizentes com os movimentos de cooperação, colaboração e produção conjunta entre diferentes realidades e dificuldades”, afirma.
O estudo, intitulado de Panorama e perspectivas teórico-metodológicas das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) na formação profissional em educação física em universidades públicas brasileiras, foi defendido em novembro de 2022 e pode ser acessado no Banco de Teses da USP.
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