Estudo da EEFE mostra como atividades orientadas e livres podem impactar o desenvolvimento das habilidades motoras e coordenação das mãos de crianças.
Desde o nascimento, as crianças passam por um processo contínuo de aprimoramento de suas ações manuais. No começo, os movimentos são mais amplos e imprecisos. Com o tempo, passam a ser mais controlados e os indivíduos utilizam mais os dedos, o que permite uma maior destreza e facilidade ao lidar com objetos.
O desenvolvimento motor é um processo contínuo e passa por diversas etapas ao longo da vida. Foto: Freepik
Entender qual movimento utilizar para atingir o objetivo de uma tarefa é essencial para realizá-la com sucesso, já que diferentes tarefas exigem diferentes movimentos. Para grandes objetos, por exemplo, uma preensão (ato de segurar ou agarrar um objeto com as mãos) mais ampla pode ser mais eficaz, enquanto tarefas que exigem precisão, como manipular objetos pequenos, requerem movimentos mais finos e maior controle dos dedos. Durante o desenvolvimento motor, esses meios e fins podem ser mais ou menos orientados.
Um estudo da EEFE realizado pela pesquisadora Rafaela Zortéa Fernandes Costa, sob orientação do Prof. Dr. Luciano Basso, investigou como os padrões de ação manual de crianças se diferenciam e se adaptam de acordo com as diferentes configurações de experiências, em que os meios (como realizar) e fins (objetivos da tarefa) podem ser orientados, livres ou parcialmente orientados.
Os resultados revelaram que situações orientadas podem ser mais eficazes para melhorar o desempenho imediato na realização da tarefa, enquanto situações com maior liberdade parecem ser fundamentais para o processo de adaptação e para compreensão do que fazer em tarefas que envolvem ações manuais.
Influência das estratégias de orientação nas tarefas motoras
O experimento envolveu um conjunto de seis barras e seis orifícios, nos quais as crianças deveriam realizar uma série de ações motoras, como alcançar, pegar, transportar e inserir as barras.
Barras e suportes de orifícios usados nos experimentos. Imagem retirada do trabalho original.
As crianças foram convidadas a se sentarem em uma cadeira e receberam instruções de que o material apresentado consistia em um jogo de inserção de barras. Elas foram posicionadas em frente a uma mesa com uma superfície 80x80 cm e 45 cm de altura. Essa altura permitiria que seus braços ficassem flexionados a aproximadamente 90 graus. Ao sinal do experimentador, a criança iniciava a atividade conforme as orientações de cada condição de experiência, que variavam entre meios e fins orientados ou livres.
Posição das crianças para a realização de tarefas. Imagem retirada do trabalho original.
As que participaram das situações com meio orientado apresentaram um desempenho mais direto e eficiente, especialmente em tarefas que exigiam maior precisão na execução. Esses grupos demonstraram maior quantidade de inserções diretas nas atividades que envolviam a colocação das barras nos orifícios, sugerindo que a clareza na definição dos meios pode facilitar o alcance do objetivo da tarefa.
Por outro lado, os grupos que tiveram liberdade nos fins apresentaram uma redução de variação nos padrões de preensão. Embora a liberdade no objetivo não tenha levado a um aumento da variação de estratégias, esses grupos estavam mais aptos a adaptar seus movimentos para resolver problemas relacionados ao uso do objeto de maneira mais eficiente, mesmo sem um fim pré-estabelecido.
Orientação e liberdade no desenvolvimento das habilidades motoras
Os resultados indicaram que situações orientadas tendem a resultar em um desempenho mais eficiente e direto, enquanto contextos que oferecem maior liberdade são mais eficazes no desenvolvimento da compreensão dos processos necessários para resolver uma tarefa. A orientação pode ajudar as crianças a alcançar resultados de forma mais rápida e precisa, enquanto a liberdade favorece o aprendizado sobre o que fazer.
Criança realizando os exercícios propostos. Imagem retirada do trabalho original.
“Concluímos também que orientar o meio, quando se trata de tarefas manipulativas com crianças pequenas, nem sempre é possível. Desta forma, educadores e profissionais devem fornecer possibilidades com graus variados de liberdade para que a criança possa explorar diferentes relações entre meios e fins com o uso das mãos”, destaca Rafaela.
O estudo intitulado “Padrões de ação na infância: explorando relações meio-fim em habilidades manipulativas” está disponível no banco de teses da USP e pode ser acessado na íntegra clicando aqui.
Por Guilherme Ike
Estagiário sob supervisão de Paula Bassi
Seção de Relações Institucionais e Comunicação