Pesquisa feita com atletas de elite da modalidade revelou os fatores biomecânicos de uma aterrissagem ideal
Um dos maiores desafios enfrentados pelos atletas da Ginástica Artística é a finalização, ou “chegada”, de uma série em aparelhos. Pequenos deslizes na hora da aterrissagem podem resultar em perda de medalhas ou, até mesmo, em uma lesão. Os fatores que determinam o sucesso ou a ocorrência de falhas nesse momento podem estar relacionados à Biomecânica, como mostrou uma pesquisa da EEFE. O estudo, realizado entre 2016 e 2020 por Franklin de Camargo-Júnior, sob orientação do Prof. Dr. Alberto Carlos Amadio, analisou saídas de Barra Fixa realizadas por atletas de elite e explorou a matemática por trás de uma aterrissagem de sucesso.
Pesquisa da EEFE analisou saltos feitos por atletas de elite da modalidade durante a saída da barra fixa e explorou a matemática por trás de uma aterrissagem de sucesso - Foto: Ricardo Bufolin/CBG
Movimento decisivo nas competições
A saída dos aparelhos é um dos momentos mais difíceis para os ginastas. De acordo com Franklin, ex-aluno e pesquisador do Comitê Olímpico do Brasil (COB), a ideia de estudar o tema surgiu enquanto analisava a prática dos atletas em fase de preparação para as Olimpíadas do Rio 2016. “Esse problema de pesquisa tomou forma enquanto trabalhava com a Seleção Brasileira de Ginástica Artística. Na época, duas questões nos deixavam inquietos: o efeito das falhas de chegada nas notas em competição e o risco de lesões associadas às aterrissagens ineficazes”, comenta.
Em Ginástica Artística, a pontuação é composta pela soma das notas de dificuldade e execução, com deduções a cada falha cometida. A Federação Internacional de Ginástica (FIG) estabelece que as aterrissagens estão sujeitas a deduções de 0.1 a 1.0, quando ocorrem desde um pequeno desequilíbrio a uma queda. O pesquisador aponta que, com provas cada vez mais definidas por detalhes no alto rendimento, um pequeno passo na aterrissagem pode ser o suficiente para tirar um atleta do pódio.
Os mais recentes Jogos Olímpicos, disputados em Paris 2024, confirmam a contemporaneidade desse estudo da EEFE. Na barra fixa, por exemplo, a disputa nas últimas três edições demonstra que uma aterrissagem ideal, sem passos ou quedas, pode fazer grande diferença.
Pontuação em finais olímpicas de barra fixa nas últimas três edições dos Jogos Olímpicos.
O papel da Biomecânica na Ginástica Artística
A Biomecânica analisa os movimentos realizados por seres vivos a partir da Física. Para chegar aos resultados, o estudo mediu a quantidade de movimento angular do corpo, o ângulo do corpo, a velocidade angular do corpo e as velocidades horizontal e vertical do centro de massa dos ginastas durante os saltos.
A coleta dos dados foi realizada em diferentes Centros de Treinamento do Brasil e contou com a presença de sete atletas profissionais, presentes no ranking internacional na época. Selecionado por conveniência metodológica, todos executaram uma saída de Barra Fixa em Duplo Mortal Esticado para Trás.
De acordo com o pesquisador, os fatores determinantes para a escolha desse elemento ginástico como objeto de pesquisa são os potenciais: (1) de caracterização das variáveis que descrevem a demanda mecânica com base modelo analítico simplificado em duas dimensões e (2) de transferência para outros aparelhos e/ou elementos ginásticos. O Duplo Mortal Estendido para Trás é composto por um giro gigante (balanço em barra fixa), lançamento, voo (rotação em torno do eixo médio-lateral) e aterrissagem (ou chegada).
Imagem retirada da pesquisa.
A composição de uma aterrissagem ideal
O sucesso de uma chegada envolve as diferentes fases que compõem a execução do elemento ginástico. Segundo o pesquisador, no caso do duplo mortal estendido, o impulso gerado na barra, o instante de liberação do aparelho e a movimentação dos segmentos em fase aérea governam, nessa sequência, as condições de aterrissagem.
O modelo analítico proposto pelo estudo sugere que não existe uma única forma mas sim algumas combinações eficazes numa estreita margem de sucesso. “Ao executar a saída do aparelho nos intervalos de confiança definidos por quantidade de movimento angular, ângulo de chegada (posição do centro de massa em relação o tornozelo) e velocidades (linear e angular) no instante de pré-colisão, os atletas cumprem os requisitos para uma aterrissagem ideal, isto é, sem passos ou queda”, afirmou Franklin.
Um grande exemplo disso pode ser observado no Campeonato Mundial de Ginástica Artística de 2019. Nas etapas classificatória e final, Arthur Nory finalizou a barra fixa de forma exemplar (ou “cravada”), tornando-se campeão nesse aparelho pela primeira vez na história da Ginástica Artística brasileira.
"Pouco adianta estar no papel se, de alguma forma, não pudermos transferir isso para as execuções. Os princípios Físicos nos oferecem parâmetros para as observações e enquanto o treinamento sugere os caminhos de intervenção física e técnica. É um esforço interdisciplinar tendo o atleta como agente ativo no processo de aprimoramento”, afirmou o pesquisador.
“É um esforço interdisciplinar tendo o atleta como agente ativo no processo de aprimoramento” - Foto: Danilo Borges/rededoesporte.gov.br
A tese intitulada “Biomecânica da aterrissagem de duplo mortal estendido na barra fixa” encontra-se disponível no site de teses da USP e pode ser acessada por meio do link:
Veja também a apresentação do trabalho no XXVIII International Congress of Biomechanics in Stockholm (ISB 2021), um dos mais importantes congressos de Biomecânica no cenário internacional: https://www.youtube.com/watch?v=hdK0Oy3T94s
Por Giulia Rodrigues
Estagiária sob supervisão de Paula Bassi
Seção de Relações Institucionais e Comunicação